FreePorto: última parte

Urros inaugura o Monumento da Nova Literatura Brasileira: um bloco de gelo (2009)

A seguir, uma prévia do “Manual da FreePorto”

A FreePorto – Festa Literária do Recife nasceu com uma pergunta na cabeça: para que servem festas literárias? A partir dessa, vieram outras: como deveria ser uma festa literária? É preciso torrar uma grana para fazer uma festa literária? Existe vida inteligente em Marte? E em Recife?

E outras e outras perguntas mais ou menos importantes. Decidimos então fazer nossa própria festa, para responder algumas dessas perguntas e criar outras mais. Nenhuma pretensão de ser a melhor festa literária do sistema solar, apenas a ideia fixa de que festas literárias não deveriam ser eventos para pessoas posarem de intelectuais em balneários. Na FreePorto, muitos recitais de rua, intervenções urbanas, jogos da verdade entre escritores e plateias mascaradas – literalmente – e até lançamentos de livros – também literais, pois os autores arremessavam seus livros para ver qual era o ‘melhor lançamento literário do ano’, para o terror das editoras,
que levam bem a sério essa coisa de ‘lançamento do ano’. A sério mesmo. Para deixar claro que nossa intenção era muito mais fazer as pessoas pensarem do que criar um novo evento no calendário de festas literárias no país, determinamos que só haveria 3 edições,um pouco para brincar com essa moda de trilogias e um pouco porque temos outras coisas mais importantes para fazer na vida, como
escrever nossos livros. Quando digo nós, me refiro ao Urros Masculinos, ou seja, Artur Rogério, Bruno Piffardini e Wellington de Melo, sempre em ordem alfabética.

Biagio Pecorelli: a primeira raposa (2009)

Adotamos um mascote: uma raposa, inicialmente para brincar com uma festa em Pernambuco que acontecia na famosa praia de Porto de Galinhas. Mas o personagem
ganhou outro simbolismo para nós e passamos a tê-lo como representação desse espírito quixotesco da festa, da guerrilha de se fazer arte, se fazer literatura com sangue no olho. Homenageamos na primeira edição o escritor J. G. de Araújo Jorge. Muita gente pensou, de novo, que era brincadeira, mas a homenagem foi muito, muito séria. Quem
julga o que é boa literatura ou não? Não é o leitor? J. G. teve bastantes leitores, ora bolas. Na segunda edição, intitulada “O casamento da raposa”, reinventamos o formato da festa,criando um país imaginário chamado Nova Bulgária, homenagem a Campos de Carvalho, autor de o Púcaro Búlgaro. Mas cada dia teve um patrono: Silvana Menezes e Lucila Nogueira também foram homenageadas, pois cada nome de cada evento tinha o nome de um verso de um poema delas. Na segunda FreePorto cada um dos convidados era um personagem de uma narrativa que transformou a ilha do Bairro do Recife em uma república autônoma cujo governo era composto só por escritores. Repartimos a ilha em lotes – sim, literalmente – e vendemos títulos de nobreza a escritores que quisessem ajudar a fazer a brincadeira. Conseguimos arrecadar alguns trocados.

Comprovando que Platão estava certo, ao final da festa a república se dissolveu – verdadeiros artistas tendem a ser
péssimos políticos. Na performance final, no casamento da raposa, o mascote foi assassinado pelo grupo que o criou. Nós, escritores, matávamos o mascote da festa e deixávamos no ar o que viria na terceira edição. “A ressureição da Raposa”? “A Raposa Zumbi”? “Um enterro suspeitoso ou A festa de São Pedro e da Raposa no Céu”?

O Palhaço, a Vaca e o Abutre matam a Raposa (na foto: Raísa Feitosa, Marquinhos, Renata Santana e Gabrielle Vitória (2010)

Chegamos então à última edição. Com o objetivo mais uma vez de responder a algumas perguntas e deixar mais um milhão delas nas cabeças dos leitores e escritores, decidimos que a FreePorto não seria feita apenas por nós, mas por todos que quisessem, simplesmente, fazer uma festa literária. Se não acontecesse nenhuma festa, seria a prova da vitória do sistema e coisa e tal. Em termos práticos, dizemos, “se festas literárias são úteis, então cada um deveria fazer a sua”.

Para isso, atribuímos à marca da festa uma licença Creative Commons, autorizando qualquer pessoa no planeta a utilizá-la, desde que não seja para fins comerciais. E para ‘facilitar’ as coisas, lançamos este ‘manual de instruções’ ou ‘manual do franqueado’, para que as pessoas possam ter a ideia de como fazer a festa, ou pelo menos entender o que pensamos sobre essas festas e pensar por si próprios.

Festa literária fazemos toda vez que abrimos um livro de Gilvan Lemos, Borges, Cancão, Cervantes. Cada vez que lemos Piva, Cabral, Terêza Tenório, Baudelaire.

E você? Como faz sua festa literária?

Para conhecer as FreePortos que já aconteceram, até agora, clique aqui.


%d blogueiros gostam disto: