Arquivo do mês: dezembro 2010

A cerimônia


Era noite de festa na Nova Bulgária. Esta seria especial, pois geraria um fenômeno jamais visto em terras neobúlgaras. Pela primeira vez, os cidadãos do protetorado soberano contemplariam um dia, que, ao mesmo tempo, era de sol e de chuva. Era o casamento da Raposa com o Palhaço.

Quando início de noite, um grupo de pessoas já se posicionava ao redor do altar. A Vaca, o Abutre o noivo já estavam posicionados, o sacerdote já vestia sua túnica negra, as luzes já estavam acesas; os últimos preparativos terminados e a lua já estava cheia.

A celebração dependia agora de quem sempre se atrasa e a quem todos queriam ver: a noiva, a Raposa. Seguiu-se um momento de leve tensão. Viu-se, ao longe, um veículo, uma moto. Na garupa, um ser de formosura talvez nunca vista: a raposa, que já estava vestida a caráter e chegava triunfalmente. A população extasiada, batia palmas, gritava, assobiava.

A música começa e noiva encaminha-se, então, para o altar, sob olhares afáveis da população que deseja felicidades infinitas. Sobe as escadas, é recebida por seu noivo, amável. Tem início a celebração, que não só ela, como todos os presentes pareciam esperar, ou sempre ter esperado. Jamais na Nova Bulgária, uma coisa tão linda.

– Raposa, você aceita o Palhaço como seu legítimo esposo? – perguntou a voz grave do sacerdote

– Sim. A resposta veio sem dar qualquer sinal de dúvida

– Palhaço, você aceita a raposa como sua legítima esposa, até que a morte os separe?

– Sim.

Gritos de felicidade. O povo aplaudia, em verdadeiros urros. O que aconteceu depois, talvez nunca se entenda o porquê (talvez na próxima FreePorto). O palhaço vira para a raposa como que para beijá-la, revela seu rosto, até então encoberto por um véu negro. É a face da morte.  Puxa um objeto de sua vestimenta de pingüim, típica dos noivos, movimenta-o contra a Raposa. Era um punhal. A raposa é várias vezes apunhalada no chão do altar. o Palhaço agora ria, como que de orgulho. A população, em estado de choque, assistia a tudo, sentindo estar em um espetáculo de horror.

O rastro do sangue corria pelo meio fio da Rua da Moeda. Ao invés de sol e chuva, uma tempestade de confetes começa a cair, como era costumeiro em tal localidade. O corpo da raposa desaparece por entre a chuva de cores.

No dia seguinte, a população está ansiosa para saber das especulações do Correio da Nova Bulgaria. Afinal, o que terá acontecido à raposa.


O Casamento da Raposa com o Palhaço fez parte do livro vivo, proposto pela FreePorto 2010, em que o Bairro do Recife  se transformou na Nova Bulgária – um estado autônomo governado por escritores e poetas, em uma espécie de oposição à república platônica. Esta foi a penúltima edição do evento, que é uma trilogia, e busca repensar o conceito de festa literária


O que os escritores disseram

Os poetas e escritores que passaram pela FreePorto 2010 contribuiram com frases marcantes sobre a Festa e sobre a literatura. Confira abaixo:

Mário Prata, sobre a FreePorto

“Quando cheguei aqui fiquei surpreso. Nas outras feiras literárias em que ia, geralmente tinha toda aquela história de ser recebido por secretário de cultura. Aqui fui recebido por pessoas muito bem humoradas e quando sentei aqui na frente já saquei qual era a história e  me surpreendi.  É um evento com a cara do Campos de Carvalho… muito louco”

Silvana Menezes, sobre o lançamento de seu primeiro livro, “Vire a Página”

“Foi um processo agoniado, mas que no final me deu muita felicidade, principalmente pelo fato de o lançamento ser aqui na FreePorto. Para mim, este é um evento criativo e interessante. Tinha que ser aqui, em que estão muitos de meus grandes parceiros, que me ajudaram a tirar o livro da gaveta”

Nicolas Behr, sobre Recife e a FreePorto

“Adorei conhecer o Recife. Volto orgulhoso porque me fez um bom efeito. Gosto de escrever sobre cidades e fiquei doido para escrever sobre o Recife, que é uma cidade quase que anfíbia. Para mim, que vivo em Brasília, esse choque de realidade seria um nicho e renderia muita coisa. E foi a FreePorto que proporcionou isso. Em eventos literários, geralmente encontramos outros poetas. Aqui encontramos o leitor. Todo mundo ganha”

Cícero Belmar, sobre a FreePorto

“A literatura tem muitas vertentes. E a picardia e a sátira merecem ter seu espaço, tanto quanto outros gêneros. Aqui transitamos naturalmente com as pessoas que produzem literatura. E isso é que é festa literária. A FreePorto cumpre seu papel”

Cyl Galindo sobre Campos de Carvalho, homenageado da FreePorto

Acho que o Brasil teve dois grandes escritores. Um foi Graciliano Ramos, o outro foi Campos de Carvalho, que era extraordinário. Ele desperta o louco que há em cada um de nós”


Bruna Beber, sobre sua ultima obsessão literária

“Teve uma época em que cismei em reescrever meus poemas de várias formas. Escrevi à mão, usando o computador e até gravei. Acredito que isto me fez observar novas relações”

Bruna Beber, sobre a FreePorto

“Nunca fui a uma festa literária tão criativa nem fui tão bem recebida como aqui na FreePorto.”

Raimundo de Morais, sobre o preconceito em relação aos homossexuais e à literatura homoerótica

“São três mil anos de repressão, tendo base na bíblia. Mas, com o trabalho de construção do Universo em expansão, vocês acham que Deus vai se preocupar com o cu de cada um?”

Marcelino Freire, sobre Balé Ralé, dialogando com Raimundo de Morais

“Escrevo sobre dor. E dor não tem sexo.”

Martín Palacio Gamboa, sobre a FreePorto

Podría dar una larga conversación de lo que implicó la fiesta de la FreePorto, organizada por la (no tan) santa trinidad Wellington de Melo, Artur Rogério y Bruno Piffardini, allá por el barrio más antiguo de Recife, una intersección del planeta que bien podría cruzarse con el San Telmo de Buenos Aires y el Barrio Sur montevideano. Estos tres verdaderos caballeros de las letras, con algo de Monty Python y cierta cosa desacralizante que, por momentos, me remite a la movida de los viejos y queridos dadaístas, supieron generar un quiebre en la gelidez inútilmente pomposa de los encuentros de escritores. Sin perder la altura ni el salto cuántico de sus apuestas, promovieron verdaderos diálogos entre autores y público, así como relecturas sobre los outsiders de la historia -con h minúscula, por favor- de las letras nordestinas y que encierran, aun en la actualidad, la probabilidad de largar el canon por la borda.

 


Vulpes mortuum – último dia da penúltima FreePorto

O último dia da FreePorto teve uma cara de prosa.

Começou com as leituras do novíssimo, pero no mucho, grupo Autoajudaliterária, formado pelos escritores Gerusa Leal, Lúcia Moura, Cícero Belmar, Fernando Farias e Raimundo de Moraes. Sentados no já famoso sofá da FreePorto eles leram alguns contos inéditos e outros conhecidos, como foi o caso de Fernando Farias, que chegou a tirar lágrimas de uma pessoa da plateia.

Na sequência, Ronaldo Correia de Brito e Cristhiano Aguiar, senadores da Nova Bulgária, leram contos seus. Cristhiano Aguiar na oportunidade lançou seu livro “Os justos”, pela Moinhos de Vento. A tarde continuou com a plateia ouvindo Everardo Norões falar sobre poesia, anões e as coisas mínimas de onde se pode extrair arte. Artur Rogério e Muriel Tavares leram na rua seus textos para um público atento, enquanto no obelisco que fica ao lado de uma certa livraria, Ammar Rodriguéz comandava, diante de olhos desavisados, um recital profano poético ao deus Pintão, que, devido a mudanças logísticas, acabou se transformando no deus Pintinho.

Às 19h, com uma hora de atraso, como é digno de qualquer noiva, ainda mais uma raposa, começou o casamento da Raposa. As três personagens que se apresentaram na sexta-feira, a Vaca, o Abutre e o Palhaço, estão no palco à espera da noiva, que chega de moto com Jorge, o poeta do improviso. João Menelau, Kiko e Zé Manoel interpretam o tema inédito “O Casamento da Raposa na Nova Bulgária”. Um sacerdote sinistro começa a cerimônia. Ao final, diante do sim, uma surpresa: o palhaço, que naquela tarde viera com um véu, revela sua verdadeira face: a morte. Apunhala a raposa, no que é seguido pelo sacerdote, que se revela como Bruno Piffardini. Artur Rogério e Wellington de Melo também dão mais duas estocadas. O corpo inerte da raposa jaz no palco. O palhaço declara ironicamente “Vida longa ao império dos escritores”, e sai do local com o escalpo da raposa. Vulpes mortuum. A raposa está morta.

A plateia, ainda sem entender o que acontecera com a raposa, assistiu ao fenomenal show da banda Sabiá Sensível, que encantou a plateia com sua loucura mezzo tropicalista mezzo qualquer-coisa-tudo-de-bom.

Foi isso, pessoal! A raposa morreu. E agora? Cenas do próximo capítulo…


Segundo (e penúltimo dia) – 04.12.2010

Turistas, escritores convidados e cidadãos neobúlgaros puderam apreciar o território da bela nação constituída através de um citytour pela, antigamente tida como, Ilha do Recife. A primeira parada foi na Explatônia (confira o mapa da Nova Bulgária), onde se apreciou esse lugar anteriormente tido como Marco Zero da cidade do Recife, tal qual a Província Ultramarina do Cachimbo e outras mais províncias circundantes. O citytour também parou no Forte do Brum, onde os visitantes puderam apreciar a vista do porto e dos tanques da Petrobras, tal qual os expostos no museu militar.

Logo em seguida, dando continuidade a programação desse segundo e penúltimo dia da FreePorto duplas de escritores se apresentaram na rua da Moeda (quem foram eles? confira na programação). Mais adiante no Corpos Percussivos foi debatido (fora da programação) os assuntos: Manifesto do Nada, Poesia Camaleão e Nanoliteratura, com grupos de ensino médio que defendem a causa.

Novamente na rua da moeda os nobres cidadãos dessa tão amada ilha estiveram presentes num bate-papo entre Renata Pimentel, Alexandre Furtado, Nicolas Behr e Bruna Beber, no Café Cultural Fafire – Especial FreePorto, na rua da Moeda. Seguido novamente por duplas de escritores. Enquanto no Corpos Percussivos o Cineclube AZouganda exibiu e debateu o filme de Glauber Rocha, Jorge Amado.

Às 20h, o Corpos Percussivos, na Rua da Moeda, abrigou uma conversa/debate entre Johnny Martins, Delmo Montenegro e Raimundo Moraes sobre poesia homoerótica. O evento foi transmitido ao vivo através de um broadcast da FreePorto (o mesmo fora anunciado previamente no Twitter, mantenha-se informado através de @freeporto) e teve a participação de internaltas. O frutífero debate fez Marcelino Freire abrir mão de seu momento de ser entrevistado pelo público, ele sentou-se ao sofá e deu gás à mesa (ou melhor sofá) que nessa hora já debatia a questão do rótulo de obra.

Silvama Menezes lança seu livro e os autográfa depois da apresentação do grupo Vozes Femininas. O grupo Cia Duvidosa monta seu cenário na rua da Moeda e apresenta o espetáculo Esta propriedade está condenada.

A noite terminou com a festa de Despedida de Solteiro do Palhaço, a Inundada foi regida pelo DJ Mr. Kaya no Bar Burburinho. Hoje, a Free começa às 14h e terá quase todas as suas mesas (sofás) no Corpos Percussivos, transmitidas ao vivo por aqui (clique) – mais informações no twitter @freeporto.


Primeiro dia – 03.12.2010

Quem esteve no Distrito Federal da Nova Bulgária (para os mais desinformados estrangeiros que exista: aproximadamente entre a Rua Tomazina e a Rua da Moeda no antigo Recife Antigo) foi testemunha da instituição oficial e totalitária da Nova Bulgária.

Pouco depois que o sol se pôs, depois das seis e antes das sete da noite, o Burburinho assistiu a chegada Marcelino Freire e Jomard Muniz de Britto para ao comando de Roberto Queiroz fazer-se um recital.

Às 20h as ruas foram invadidas pelo povo e pela voz que propalava em passeata a poesia de Lucila Nogueira, homenageada daquela primeira noite da FreePorto.

Logo todos ocuparam o Corpos Percussivos ali na cede da Província Soberana da Nova Bulgária para apreciar a apresentação musical do escritor e músico uruguaio Martín Palacio Gamboa, que cantou versões em espanhol de poemas de Lucila Nogueira e leu poemas seus, com tradução (quase que) simultânea de Wellington de Melo.

Logo depois tivemos Pedro Paulo Rodrigues recitando poemas de sua autoria e a entrega o prêmio Pierre Menard de Cover Literário, o qual foi ganho Gerusa Leal por cover a Homo Erectus de Marcelino Freire, que recitou original, sucedido por Gerusa que leu o cover.

Quem esteve no Twitter acompanhando a Free pôde saber antes que Lucila chegara a Rua da Moeda e alguns minutos depois todos souberam quando Bruno Piffardini assumiu o microfone e vociferou: “senhoras e senhores, Lucila Nogueira adentra o ambiente”.

Na mesa de debates (digo, no sofá vermelho da FreePorto) o leitor pernambucano Daniel Xavier, juntamente a Marcelino Freire e o escritor mineiro Mario Prata conversaram sobre Campos de Carvalho.

Depois o triunvirato do Urros Masculinos, Artur Rogário, Wellington de Melo e Bruno Piffardini, comandaram a posse dos senadores da Nova Bulgária. Allan Sales deu voz ao hino neobúlgaro.

O desfile de figuras emblemáticas da nação neobúlgura como O Abutre, A Vaca e O Palhaço causaram frison nos presentes. Quem esteve por lá pôde conferir quando A Raposa aproximou-se do trono e foi pedida em casamento pelO Palhaço.

As bandas Ganharva e Voyeur fecharam a noite animando toda a a Rua da Moeda, mas não sem que antes Wellington de Melo impactasse a todos com uma leitura de poemas de O peso do medo.

Agora, que venha o segundo dia e que venham para o segundo dia – a FreePorto só começou.

Algumas fotos da noite (para ver mais, clique aqui):


Viva a Nova Bulgária


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